29 de dez de 2011

Minha Biografia "Não Autorizada"


Manifesto do artista independente do tipo faça você mesmo


Por Rafaela Cappai (www.espaconave.org)
Olá, muito prazer. Meu nome é artista-independente. Eu sou do tipo Faça Você Mesmo. Eu me viro nos trinta, jogo nas onze, frito o peixe e olho o gato ao mesmo tempo. Eu uso minhas habilidades de malabarista pra manter todas as bolas no ar ao mesmo tempo, sem deixar a peteca cair.
Eu trabalho pelo menos 10 horas por dia pra dar conta de pagar as contas. Eu não tenho plano de saúde, não tenho conta de celular fixo, não tenho carro e não tenho coragem de assumir uma prestação de 6 pagamentos futuros.
Eu não tenho horas fixas de trabalho, não tenho equipe fixa de trabalho e não tenho salário fixo pelo meu trabalho. Tem mês que entra, tem mês que não.
Eu me envolvo em pelo menos quatro projetos ao mesmo tempo, recebendo pequenos cachês de cada um. No montante a coisa fica mais fácil.
Eu não sou bom com dinheiro e não sei cobrar direito pelo que faço. Eu trabalho de graça.
Não tenho rotina, não tenho férias, não tenho ócio criativo.
Muitas vezes trabalho naquilo que não gosto pra poder fazer aquilo que gosto.
Você pode incluir meu trabalho na lista dos sazonais. De Novembro à Março é particularmente difícil. Não que eu não trabalhe. Eu trabalho muito, a questão é que eu não ganho dinheiro.
Eu não tenho ecritório, nem estúdio, nem sala de ensaio onde possa trabalhar. A sala lá de casa é ao mesmo tempo meu escritório, meu estúdio e também sala de reunião.
Meu parceiro também é artista. Somos os dois no mesmo barco, sem ninguém pra segurar a onda quando a maré baixa. Nós desejamos ter filhos, mas não sei quando teremos segurança suficiente pra ter coragem de encomendar um.
Eu sou multi-tafera, o que ao meu ver já não é tão bom assim. No currículo soa bonito, mas na vida real significa que eu não consigo focar em uma só coisa de cada vez.
Sobre meu currículo, ele parece um Frankstein, com experiências diversas, em projetos diversos, com gente diversa. Pode até parecer que sou instável, mas se você olhar bem, faz até bastante sentido. Eu não sou instável, sou apenas uma pessoa que tem múltiplos interesses e múltiplas qualidades. E uma enorme capacidade de adaptação também.
Tá bom, eu confesso que às vezes tenho dificuldade de focar em um só projeto, uma só ideia. Eu tenho ideias a todo momento, mas não sei exatamente como realizá-las.
Tá certo, não sou eu que sou instável, mas minha vida sim. Ando na corda bamba diariamente, esperando a ligação que vai garantir o cachê do mês seguinte.
Sim, minha vida é precária.
A linha que divide prazer e trabalho é bem fininha, e as coisas pulam de um lado para o outro sem nem pedir permissão. Começo trabalhando e quando já vi estou me divertindo. Ou começo me divertindo e quando vi, já virou trabalho. E mesmo se eu estiver me divertindo, saiba que posso estar trabalhando. Uma coisa não exclui a outra.
Muitas vezes as pessoas não respeitam meu horário de trabalho. Muitas vezes eu mesmo não respeito meu horário de trabalho, trabalhando quando deveria estar descansando e descansando quando deveria estar trabalhando.
Muitas vezes não estou no clima de ir a lançamentos e estréias, mas fico pensando que são esses momentos que podem me abrir oportunidades. Então eu vou, mas eu acho meio estranho quando alguém me diz que tenho que fazer network. Sair pra trocar cartões que eu nem tenho, com pessoas que não conheço. Esse tal de network já faz parte do que eu sou, descobrindo novas pessoas e fazendo amigos. Sem forçar a barra.
De vez em quando eu consigo emplacar um projeto através de Lei de Incentivo, o que me dá um certo respiro por um curto espaço de tempo, mas eu vejo com suspeitas esse boom dessas tais indústria e economia criativas, uma vez que não entendo muito bem como isso vai ajudar na prática a desenvolver a minha vida, a forma como eu trabalho e a maneira com que ganho meu dinheiro, sem necessariamente atingir a integridade do que faço.
Apesar de estar crescendo e evoluindo na minha carreira, muitas vezes tenho a sensação de que estou dando voltas no mesmo lugar, correndo atrás do meu próprio rabo. Não consigo ter a regularidade que gostaria, gerando oportunidades em um fluxo estável.
Às vezes tenho vontade de ter emprego fixo, carteira assinada, plano de saúde, ferias pagas, 13º salário… em um escritório fechado, com gente chata e careta, fazendo trabalho sem graça… daí a vontade passa.
Eu até já tentei trabalhar em um ambiente um pouco menos criativo e mais comercial, mas tinha a sensação de que estava vendendo minha alma ao diabo, por um preço bem camarada, já que o salário e as condições também não eram lá grandes coisas.
Já pensei em desistir mais vezes do que você possa imaginar, mas quando penso na minha felicidade, sei que minha motivação é intrsínseca, não necessariamente vem só de dinheiro ou reconhecimento. Eu amo fazer o que faço e não me vejo sendo feliz fazendo outra coisa. Muitas vezes até não sei se consigo fazer outra coisa. Já pensei em abrir uma loja de empadas, mas a ideia passa rapidinho quando penso que não dá pra ficar sem cantar, dançar, atuar, tocar, escrever, pintar, criar, fazer arte.
Aos poucos tenho aprendido palavras como marketing, redes sociais, network, cadeia produtiva, empreendedorismo, já que dizem por aí que isso pode me ajudar a melhor professar a minha arte, mas sinto que o artista que vive em mim fica meio escondido por trás de planilhas de custo, contas à pagar, orçamentos, objetivos e justificativas.
Minha meta de vida é trabalhar 100% com arte, sem precisar me envolver em projetos com os quais não me identifico conceitualmente e esteticamente.
No fundo eu sou feliz por exercer minha liberdade artística e criativa, mas a perrenga financeira vez ou outra diminui minha confiança no futuro e minha paixão pelo que faço. Já o amor, esse continua intacto.
E pra você que olha de fora, minha vida pode até parecer mais fácil que a sua. Saiba que sou artista e trabalho com arte. Eu não mexo com arte. Com arte não se mexe, é coisa muita séria pra se mexer.
Texto inspirado nas entrevistas realizadas para o artigo “Precarity in the music sector of the city of Belo Horizonte: characteristics and strategies”, durante Mestrado em Empreendedorismo Cultural e Criativo, na Goldsmiths University of London.