19 de set de 2011

O mês da cultura se foi, e agora?


Muito
Edição de domingo, 18 de setembro de 2011 
O mês da cultura se foi, e agora?
Com o fim da programação do Agosto da Alegria, agentes locais avaliam evento promovido pelo Governo do Estado
Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@dabr.com.br 

Os cajus já florescem no setembro ainda invernal. Mas os ventos alíseos do Agosto da Alegria passaram sem deixar alguns esclarecimentos. O evento foi a primeira iniciativa de repercussão da Secretaria Extraordinária de Cultura. Mais de 400 apresentações espalhadas em diferentes pontos da cidade. Manifestações culturais variadas. E de tão distintas entre si, geram a polêmica dos limites (ou falta deles) da cultura popular - o mote principal do Agosto da Alegria. O assunto é tema de debates acalorados mesmo entre especialistas no assunto, sem respostas definitivas.

Já se provou a penetração da música clássica em comunidades periféricas. Mas como construir a programação de um evento eminentemente popular sem impor limites de gênero? Quando o sambista Paulinho da Viola, mestre de um dos mais populares gêneros musicais do país, canta "Embora não tenha nessas horas/ saudade do passado, remorso/ ou mágoas menores, meu choro Boca,/ dolente por questão de estilo/ é chula quase raiada,/ solo espontâneo e rude/ de um samba nunca terminado" é cultura popular ou cultura dita refinada, sofisticada?

Noves fora, o evento atraiu todas as gentes. Seja para os shows sanfonados de Waldonys, para as dezenas de apresentações de grupos populares, ou às exposições de artes visuais. Mas a maior crítica do segmento artístico é: atraiu pessoas, sim, mas o que elas levaram do Agosto da Alegria? Apenas instantes alegres durante o show de Jorge Aragão? Qual a discussão levantada e aprofundada sobre a arte popular? Segundo a opinião da maioria dos entrevistados, a máxima da política de eventos se manteve durante o Agosto da Alegria: a ausência de formação e uma política sustentável à cultural do Estado.

Situações pontuais foram amplamente criticadas em redes sociais e blogs. O cantor e compositor Rodrigo Lacaz foi censurado no meio do show durante o Festival Gastronômico Sabor Potiguar por causa do repertório internacional incompatível com a proposta regional do evento. O show de Khrystal, Isaque Galvão e Orquestra do RN foi cancelado em razão da chuva, sem divulgação capaz de impedir a presença do público no largo do Teatro Alberto Maranhão. Além do horário dos shows nacionais atrasados em cerca de duas horas.

Walter Carvalho
A confusão durante a exibição do DVD do novo filme do cineasta Walter Carvalho foi explicada pela própria secretária extraordinária de cultura, Isaura Rosado, durante a entrevista respondida por e-mail enquanto participava de evento em Macapá. Em suma, o DVD do cineasta apresentou defeito e ele se recusou a ver seu filme exibido por um DVD pirata, sugerido pela organização do evento para contornar o imprevisto. Se no twitter a secretária pediu sugestões para melhoria do evento, a opinião é de que só "houve satisfação" no Agosto da Alegria.

Opiniões

Tácito Costa, jornalista
"Só fui ao show de Paulinho da Viola. Não posso opiniar com propriedade. Mas fica a pergunta: tivemos uma tonelada de shows. Acabou. E agora? O problema são os eventos pontuais, anuais. Não há uma sequência na ação. Apresentações de mamulengo, e tal, tudo bem, mas temos oficinas de mamulengo para alunos? Acho que falta um planejamento de ações nessa área".

Abaeté, cordelista
"Agosto para alegria de poucos. Nós da Casa de Cordel não fomos convidados para nada. E não critico porque queremos dinheiro do governo. Queremos apenas visibilidade, divulgação. A Casa do Cordel promove cultura popular o ano todo, não é só no mês de agosto. Em Caruaru, as escolas ensinam literatura de cordel, pintura e outras vertentes da arte o ano todo. Isso vale muito mais do que um evento".

Diana Fontes, diretora de teatro
"Achei maravilhoso. O evento chegou à população, abraçou vários segmentos do ponto de vista artístico e geográfico, para várias tribos e correntes. E tudo com a essência da cultura popular. Há uma ideia equivocada de que cultura popular é o antigo. Cultura popular também é coisa nova".

Ivonete Albano, atriz e ex-diretora do TAM
"Não fui a nada do Agosto da Alegria, pois acho um assinte comemorar o mês do folclore quando se está devendo editais aos artistas. Ou a Secretaria Extraordinária e Fundação José Augusto sentam para conversar com os artistas para discutir um plano de cultura ou se continua a promover política de eventos. Em todas as áreas escuto reclamação. Não estamos sendo ouvidos".

Nelson Marques, cineclubista
"Estamos mais do que saturados da realização de eventos. Precisamos de fomento. A secretária extraordinária faz tudo da cabeça dela, sem ouvir ninguém da classe artística e aí tome evento. O que fica pra cidade depois? O que ficou? Claro, tivemos coisas legais e outras não. O problema é o depois".

Marcelo Veni, produtor cultural
"Ações como essas fortalecem a cultura popular. O projeto também tem boas possibilidades de continuidade e de se inserir no calendário culturalda cidade. Talvez não precisasse ser tão grande porque dificulta a divulgação. Em determinado momento o público ficou disperso, confuso. Para as próximas edições penso que seja válido o diálogo com artistas e produtores para que contribuam para o crescimento do evento".

Rodrigo Bico, Pontos de Cultura do RN
"Acredito no evento em outro formato, com trabalho de formação e valorização do artista local. Artistas nacionais? Tudo bem. Mas fui chamado e apresentei projeto para dois dias de apresentações dos representantes dos pontos de cultura do estado, com exposições, mesas redondas e homenagens aos mestres da cultura popular e disseram que não tinha orçamento. Afora os shows nacionais, o Agosto do Teatro, ocorrido ano passado, mobilizou muito mais gente com muito menos dinheiro".

Pedro Ivo, grafiteiro
"É o evento promovido pelo Governo, ne? Cara, vários artistas contemporâneos sequer foram convidados. E não há editais no segmento. Então sou contrário a eventos do tipo, sem continuidade e promoção da arte contemporânea. Pra mim, não existe como cultura; é fake; um evento meio morto. Ressucitam grupos de boi de reis, de côco de zambê que aceitam o convite sob qualquer condição e apresentam pra turista ver".

Eduardo Alexandre, agitador cultural
"Para uma instituição devedora, achei temerária a promoção do evento. Primeiro pague o que deve. Mas já que fez, que faça o setembro da alegria, o outubro, o novembro. Ou a cultura da cidade acabou no agosto? Espero que o artista não espere um ano para ter novamente um mês de alegria".

Antônio Marques, marchant e crítico de arte
"O Agosto da Alegria foi uma vitória para o Estado. Tanto mais pelo longo marasmo cultural. Agitou a cidade, trouxe artistas do interior; foi um saldo positivo. Mas pode ser repensado. No Salão de Artes Visuais, que participei, mobilizamos mais de 100 artistas, mas precisa abrir espaço à arte feita da sucata, da reciclagem. Também criar salões infanto-juvenis. E separar as premiações da escultura e pintura porque dificulta o julgamento. Outra coisa: os shows nacionais foram bons, mas precisa respeitar o horário. Quando Paulinho da Viola subiu ao palco eu já não tinha mais força. Mas o Rio Grande do Norte está numa boa trilha".