9 de nov de 2011

Concerto da OSUFRN - Música contemporânea


Entrevista >> Silvério Pessoa

Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@dabr.com.br 

Se a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte permanece em período de hibernação, a Orquestra Sinfônica da UFRN mantém o pique e realiza seu 12º concerto gratuito deste ano amanhã, na Escola de Música da UFRN (20h). E dessa vez com convidados especiais e repertório contemporâneo. Ninguém menos que o pernambucano Silvério Pessoa estará na plateia e no palco para uma canja junto ao professor de violoncelo Fábio Presgrave. Participam ainda a violinista Ana Paula de Souza e o percussionista mexicano Manuel Alejandro Zacarias na execução da marimba. A apresentação faz parte do calendário de eventos do curso de pós-graduação de Práticas Interpretativas dos Séculos 20 e 21 - curso pioneiro no Brasil. O Diário de Natal conversou com Silvério Pessoa sobre a participação dele no concerto, sobre música e, ainda no âmbito acadêmico, sobre seu lado pedagogo e espiritual.

Como surgiu esse convite para vir a Natal?
Natal está sempre no meu roteiro. Tenho amigos por aí, desde Dácio Galvão, enfim. E agora retorno pelo Itau Cultural, que seleciona quatro músicos de estados diferentes para montar um show juntos. Além de eu e Fábio (Presgrave), tem o Paulo Cardoso (RS) e Ligiana Costa (SP). O primeiro encontro foi em Recife, tem este segundo em Natal, e depois no RS e SP. E mantendo contato com Fabinho, ele comentou que estaria realizando um concerto. Me ofereci pra cantar um côco. Ele topou na hora. Mas de repente a gente improvisa outras cosas. A música nordestina abre muito essa possibilidade pra improvisação. 


Foto: Arquivo ON/D.A Press
Mistura boa de popular com erudito. Você tem relação com a música erudita?
Minha formação musical é hereditária. Minha mãe foi professora de acordeon e interpretetava clássicos de Carlos Gomes, fez parte da Orquestra Sanfônica. Vovó foi cantora de rádio, na linhagem de Núbia Lafayette, Alaíde Costa. Escolhi o violão e a música popular pra me acompanhar por que é meu imaginário, meu arquétipo. Sou da zona da mata norte de Pernambuco. Para uns polêmicos há uma salvaguarda nessa mistura. Vejo como um dialogo do mundo pós moderno, entre gêneros distantes e expoentes, como o jazz com o funk, por exemplo. É uma tendência no mundo.

Você ministrou há pouco o curso "Música e religiosidade - das cavernas ao rock, uma conexão com o sagrado". Qual a relação histórica entre música e religião?

Rapaz, é difícil resumir 15 horas em 15 minutos. Bom, sou herdeiro de uma religiosidade latente, encontrada no povo do canavial de onde vim, em Carpina. Daí pra um salto de mestrado em religião foi fruto de pesquisa. E fui ao sul da França pra entender como partes do mundo se conectam ao sagrado. Estruturei o curso de extensão, ministrei e até agora repercute. Aborda heavy metal, canto gregoriano, o som e o sentido# Academicamente é pioneiro. Já recebi convite para novas palestras com essa temática. E vivencio como pessoa essa relação da música com o sagrado,com a música popular. É muito assunto#

O curso chega até as "cavernas do rock". Qual a sua ligação com o rock?

Sou um migrante. Deixei a zona da mata por fatores sociais, pra estudar. Minha família é de agricultores. Lá, eu escutava no rádio Elino Julião, Luiz Gonzaga, Marinês, Zé Calixto, enfim. E quando vim pra Recfie, em 80, descobri Led Zepelin, Joplin, Bealtes, Frank Zappa, principalmente. E o rock me deu essa possbilidade de hibridizar. Não assumo a salvaguarda da cultura popular nesse eixo mais radical de Ariano Suassuna. Tento fazer uma música dialógica com base sustentada no que eu sou: interiorano que encontra uma cultura estabelecida, metropolitana, do hip hop, do eletrônico, da guitarra. É essa minha ligação com o rock. É tentar o hibridismo: a cultura do meu povo com a música do mundo. E nisso está a música religiosa, a música sacra como conexão. Vamos aí de Bob Dylan que incursionou pelo judaísmo, como exemplo. O que era o rastafari de Bob Marley senão religião? Bealtes com o indianismo, e aí,meu amigo, é assunto.

As relações de mercado fonográfico ou no mercado em geral são, via de regra, traiçoeiras. Há esse contágio na religião?

Penso que temos o grande deus-mercado. Indubitavelmente a tendência do mundo é transformar desejos, aspirações, sonhos, em produto. A grande guerra do mundo é a tentativa de desumanizar as coisas; transformar essas coisas em objeto de compra. Você começa a adorar um celular, em vez do crucifixo. Em vez da relação família, manda e-mail e dialoga com o msn. Em vez do livro, o pdf. É um jogo perigoso. Nesse contexto, o mercado inseriu a religião. Hoje não se converte; se compra religião. Compra livros, cds... O movimento gospel conseguiu, pelo rock, possiblitar a palavra de Deus pela guitarra. O movimento carismático redimensionou o culto morto e acabrunhado da liturgia. É o momento de confronto entre o secularismo e a espiritualidade do ser humano. E nessse contexto está a arte, não só a música. É a época dos extremos, segundo Hobsbawn. Hoje, música, religião e mercado estão muito próximos.

Você mantém atividade pedagógica e musical. Normalmente se faz uma ou outra por hobby. Qual delas seria?

Querido, consigo equalizar minha vida a essas duas vertentes. O professor é um artista em sua dimensão didática, na construção de conhecimento coletivo. E o artista traz a genética pedagógica do educador. Um colega me disse que o disco temático morreu. Meu disco tem ordem, segue uma linha, uma história, uma programação visual. Nesse contexto, é um objeto educativo. Não que eu queria educar pessoas. Mas nas minha prática artística há uma práxis pedagógica. 

Os pernambucanos carregam a tradição musical pernambucana muito arraigada. Mas na sua música se percebe algo diferente. Que mistura você colocou nesse caldo?

Desde 2003 iniciei uma carreira internacional, interrompida pelo trabalho no Cascabulho. Começei uma carreira na França, de forma despretencionsa, e já lancei três CDs lá. Comecei pelo sul, onde vi profundas semelhanças e conexões com a cultura do Nordeste. E nisso me aprofundei. São quase dez anos de lançamentos, amizades, gravações, entrevistas. Cheguei a morar lá durante 110 dias. Descobri esse canal da cultura Occitan, rural, agrária, de resistência que há em comum a língua occitan, que faz uma contracultura ao centro da França. Essa influência culminou com os CDs Collectiu e o No Grau, que já tem essa tentativa de diálogo intercultural. Esse trabalho despertou a curiosidade de outros continentes. Hoje viajo com mais facilidade pra Europa do que pra Natal, por exemplo. Descobri essa forma de fazer a música que faço sem depender da indústria fonográfica do Brasil. E essa cultura arraigada não nos coloca melhores do que o movimento cultural potiguar, paraibano, ou qualquer outro. Mas é uma questão de índole. A gente expulsou muita gente daqui: italianos, holandeses, franceses# Chegando em Pernambuco você é bem recebido, mas se vem armado, a gente termina expulsando. Continuamos sendo neocoloniazdos pela rádio, pela MTV, principalmente, mas ao mesmo tempo dialogamos com essa música, mantendo essa base - talvez uma neoantropogafia do movimento modernista. Taí o que Chico Science descobriu com o afrosamba, o afrobeat, o cavalo marinho, a ciranda, e o rock, a música universal. O Mundo Livre S/A com o punk e o samba; o Mestre Ambrósio com o diálogo a partir da rabeca; o que o Cordel do Fogo Encantado fez outrora com a poesia e o cordel. É muita coisa. 

Seu estilo de música tem pouca inserção na grande mídia? Você queria ser um Lenine?

Se o galego escuta isso! Tocar no nome de Lenine é algo sagrado. É uma referência pra mim, não só como pai, filho, músico, amigo. Bom, Lenine tem um fator preponderante na carreira: a decisão de morar no Rio não só pela questão artística, mas familiar. Ao mesmo tempo o galego não é só músico, ele escreve muito bem. Fez vários trabalhos com os Trapalhões, com a Globo. Ele estava no momento, no local e na hora certa. E hoje é um artista nacional. Optei por ficar aqui. Talvez isso estabeleça algumas cercas que consigo pular de forma metódica e continuar na música 365 dias ao ano e ousar na forma acadêmica - outra paixão. Esse ano, no Le Monde, de Paris, saiu notícia que fui o artista internacional que mais fez shows na França. Infelizmente tive poucas possiblidades de negociar com gravadoras brasileiras. Recentemente tive a música Rei José inserida na trilha da novela Cordel do Fogo Encantado, que não deixou de ser uma visibilidade. Então, é isso. Se eu tivesse que dizer a você de minha inspiração estética, gostaria de achar a fórmula que Lenine achou; a pegada, o groove dele. Procuro meu estilo a partir do forró, do baião, do côco, da ciranda. Se eu tirar esses ritmos vou ter problemas sérios de saúde. Cada disco meu é um encontro. E talvez eu ainda esteja me encontrando. Mas é tudo muito prazeroso. Faço tudo com muita honestidade para o público.

Serviço
Concerto da OSUFRN - Música contemporânea
Data e hora: amanhã, às 20h
Onde: Auditório da Escola de Música
Entrada franca